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[1902] Julho - Pessoa publica o seu primeiro texto, com apenas 14 anos. O poema intitula-se "Quando a dôr me amargurar..." e é publicado no jornal "O Imparcial", Ano II, N.º 433 a 18 de Julho. [1904] Julho - Usando já o nome de um pseudónimo, Charles Robert Anon,
Pessoa publica "Hillier did first usurp the realms of rhyme..." quando ainda em
Durban, no "The Natal Mercury", a 9 de Julho.
Abril - Estreia como crítico literário.
Publica o artigo A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente
Considerada, na revista «A
Águia», dirigida por Teixeira de Pascoaes. [1913] Março - Publica, no dia 1, na revista «Teatro
- Revista de Crítica», um artigo satírico intitulado Naufrágio
de Bartolomeu, onde critica uma obra infantil de Lopes
Vieira, membro do movimento da Renascença
Portuguesa. No dia 8 (n.º 2 da mesma revista) ataca Manuel
de Sousa Pinto num outro artigo de crítica literária. No dia 25
(n.º 3 da revista) passa em análise novas publicações literárias.
[1914] Fevereiro - Publica no número único da
revista «A Renascença» os poemas Pauis e O sino
da minha aldeia sob o título geral de Impressões do
Crepúsculo.
[1915] Fevereiro - Pessoa colabora no número
especial da revista «A Galera» de Coimbra, que sai no dia 25.
Nesse número comemorativo de António Nobre, Pessoa colabora com
um pequeno artigo denominado Para a memória de António
Nobre. [1916] Abril - Publica na revista «Exílio» o
poema Hora Absurda e uma crítica intitulada Movimento
Sensacionista. No dia 13 responde a um inquérito sobre a
crise de Portugal, em «A Ideia Nacional», n.º 20. Em 26 de
Abril suicida-se Mário de Sá-Carneiro, por envenenamento, no
Hotel de Nice em Paris, deixando a Pessoa um bilhete que diz: "Um
grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro".
[1917] Novembro - Sai o número único de «Portugal
Futurista», revista dirigida por Almada Negreiros, onde Pessoa
publica o Ultimatum de Álvaro de Campos. O Ultimatum
é uma reacção (necessariamente) retardada ao Ultimatum inglês
de 1890. Neste número único, Pessoa publica ainda dois poemas
de extrema importância: Episódios / A Múmia e Ficções
do Interlúdio. [1918] Publica neste ano dois volumes de poemas em inglês: Antinous
e 35 sonnets. Estes escritos chamam a atenção da crítica
britânica do «Times» e do «Glasgow Herald» em Setembro. [1919] Maio - Publica, na «Acção», órgão do Núcleo
de Acção Nacional, os artigos Como organizar Portugal
(no n.º 1) e A opinião pública (n.º 2 e n.º 3). [1920] Fevereiro - Publica na revista «Ressurreição»,
n.º 9, o poema ortónimo Abdicação. Colabora no dia
27 deste mês com a ode À Memória do
Presidente-Rei Sidónio Pais na «Acção». [1921] Publica, na editora Olisipo que ele próprio
fundou, os livros English Poems I e II e English
Poems III. É também provavelmente deste ano a tradução
de português para inglês do livro As canções de António
Botto. [1922] Maio - Sai o primeiro número da revista «Contemporânea» - onde Pessoa iria publicar
muitos textos importantes. Pessoa inicia a sua colaboração
dando para este primeiro número a novela
O Banqueiro
Anarquista. [1923] Janeiro - Publica, no número sete da «Contemporânea»,
as Trois Chansons mortes. [1924] Outubro - Sai o primeiro número da revista
de arte «Athena», dirigida pelo próprio
Fernando Pessoa e por Ruy Vaz. Neste primeiro número, Pessoa
publica a sua tradução do conto O Corvo de Edgar Allan
Poe. [1925] Janeiro - Publica no n.º 4 da «Athena» a
sua tradução dos Poemas Finais Annabel Lee e Ulalume
de Edgar Allan Poe [1926] Janeiro - Sai o primeiro número da «Revista de Comércio e Contabilidade», dirigida
por Pessoa e pelo seu cunhado, que incluí um artigo de Pessoa
intitulado A Essência do Comércio e outro apontamento
sobre Os erros de empregados. Escreve ainda outro
artigo, mas em colaboração com Francisco Caetano Dias,
intitulado A inutilidade dos conselhos fiscais e dos comissários
do governo nos bancos e nas sociedades anónimas, em que
aborda a polémica Alves dos Reis, ocorrida em 1925. escreve
ainda diversas notas e apontamentos sobre correspondência
comercial e publicidade. [1927] Junho - Publica na revista «Presença»,
criada em Março, o poema Marinha. No n.º 5 publica um
artigo intitulado Ambiente. Julho -
Publica no jornal «O Imparcial», um artigo sobre Luís de
Montalvor. [1928] Setembro - Publica no «Notícias Ilustrado»
o artigo Provincianismo Português. [1929] Abril - Colabora no «Notícias Ilustrado»,
no dia 14, como uma passagem de grande inspiração sobre O
fado e a alma portuguesa. [1930] Maio - Colabora no catálogo do I Salão dos
Independentes, uma exposição de autores modernistas, em nome de
Álvaro de Campos. [1931] Janeiro - Publica na «Presença» o poema VIII de O Guardador de Rebanhos de
Alberto Caeiro, com uma Evocação Memorialista de
Álvaro de Campos. [1932] Novembro - Publica na revista «Fama»,
dirigida por Augusto Ferreira Gomes, o artigo O Caso Mental
Português. Neste mesmo mês colabora na revista «Presença»
com o poema Autopsicografia. [1933] Março - Saí na publicação «Fama», no
dia 10, um artigo de Pessoa sobre a Colónia Balnear de S. João
do Estoril intitulado O que um milionário Americano fez em
Portugal. [1934] Fevereiro - É publicada no «Diário de
Lisboa» do dia 14, uma entrevista com Pessoa, sobre a Mensagem.
Em conjunto são publicados três poemas da Mensagem com
ilustrações de Almada Negreiros. [1935] Janeiro - Escreve um artigo sobre o livro A
Romaria de Vasco Reis, livro que tinha ficado à frente da Mensagem
no concurso do SPN. A sua crítica, honesta e subtil, parece
prova evidente de que não guardara rancores do prémio que lhe
fora a ele mesmo concedido. Dia 29 de Novembro de 1935 - Escreve a lápis
a sua última frase: "I Know not what tomorrow will
bring" ("Amanhã a estas horas onde estarei?",
foi uma das suas últimas frases). Morre no dia 30, ás 20:30. Obras Completas, da Editora Ática (fundada por Luís de Montalvor):- Poesia - Volume I - Fernando Pessoa, Poesias, 1ª edição,
1942. (notas de Luís de Montalvor e J. G. Simões) - Prosa - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 1ª edição,
1966. - Antologia - O Rosto e as Máscaras, 1ª edição, 1978. De outros Editores: - Obras Unitárias - À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, Ed. Inquérito,
1940. - Antologias de Poesia - Poesia de Fernando Pessoa, 2 volumes, Ed. Confluência,
1942. - Antologias de Prosa - A Nova Poesia Portuguesa, Ed. Inquérito, 1944.
Crónicas Intemporais, Centro de Estudos Pessoanos (CEP),
Col. Tendências, Porto, sem data. - Epistolografia - Carlos Queirós, Homenagem a Fernando Pessoa, Ed.
Presença, Coimbra, 1936. Edições de bolso das Publicações Europa-América: - Obra Poética - 435 - Mensagem e Outros Poemas Afins - Obra em Prosa - 466 - Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas Edições da Assírio & Alvim Mensagem Volumes da Série Maior Volumes da Série Menor Um volume de Poemas de Álvaro de Campos. Volumes da Série Branca (estudos) Correspondência com os directores da presença Editar Pessoa.
Anotações: (1) «A Águia». Revista lançada
no Porto em 1910, que será órgão do movimento da Renascença
Portuguesa, e que tem por director Teixeira de Pascoaes, um dos
"cabecilhas" desse movimento intelectual. (2) A Renascença Portuguesa.
Foi um movimento de "regeneração nacional" lançado
no Porto em 1912 por nomes como Teixeira de Pascoaes e Leonardo
Coimbra. Movimento que tenta trazer de volta os momentos de
grandeza da pátria, um ideal que Pessoa guardará toda a sua
vida. De referir que o símbolo da Renascença Portuguesa era
precisamente uma águia em voo. (3) Orpheu. Revista
trimestral de literatura, fundada com o dinheiro do pai de Mário
de Sá-Carneiro e dirigida - no primeiro número - por Luís de
Montalvor (Portugal) e Ronald de Carvalho (Brasil), tendo por
editor António Ferro. A revista, que teria apenas dois números
(um em Abril e um em Julho), causaria no entanto grande sensação,
marcando o início do modernismo em Portugal. No segundo número,
além de participarem com textos, Fernando Pessoa e o seu grande
amigo Mário de Sá-Carneiro eram eles próprios directores. (4) Sidónio Pais. A figura
de Sidónio Pais, Presidente da República Portuguesa durante
apenas um ano (1917-1918), impressionou Fernando Pessoa, que viu
nele a incarnação dos seus ideais messiânicos. Em Sidónio,
Pessoa viu - ou pelo menos quis ver - o regresso do Encoberto, de
D. Sebastião. No entanto o assassinato daquele em 14 de Dezembro
de 1918 levou Pessoa a considerá-lo um falso D. Sebastião, como
outros antes dele o tinham sido. No entanto, durante os anos de
1918 e 1919, Pessoa escreveu algumas páginas para um livro que
se intitularia O Sentido do Sidonismo, pelo que é
evidente que o fascínio pela figura de Sidónio se manteve mesmo
depois da ocasião do assassinato. (5) Editora Olisipo. Antes
desta experiência, já em 1907, com o dinheiro recebido em herança
pela morte da sua avó Dionísia, Pessoa tinha montado uma
tipografia/editora em Portalegre - a «Empresa Ibis» - que no
entanto funcionou pouco tempo. A editora Olisipo funciona o tempo
suficiente para nela Pessoa publicar os seus English Poems,
assim como obras de Botto e Almada. (6) Annie Besant. Feminista
do Século XIX, dirigente da Sociedade Teosófica de Londres. (Ver
Teosofia). (7) A «Contemporânea».
Revista dirigida por José Pacheco, que pertencia ao "grupo"
dos modernistas. O lançamento desta revista foi uma tentativa de
reconstruir o grupo de «Orpheu», mas uma tentativa, na
perspectiva de Pessoa, completamente falhada. Pessoa revela essa
decepção numa carta a Armando Côrtes-Rodrigues datada de 4 de
Agosto de 1923. (8) A «Athena». Depois do
modernismo tumultuoso de «Orpheu», a «Athena» é o regresso
de Pessoa a um interesse sempre presente pelo classicismo,
imanente ao heterónimo Ricardo Reis. (9) Mário de Sá-Carneiro.
Em 1907, tendo apenas 19 anos, Pessoa escreve no seu diário: "Um
amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos
quotidianos, embora esteja certo que nunca chegarei a ter um
verdadeiro amigo íntimo". Sá-Carneiro tinha apenas
menos dois anos que Pessoa (tinha nascido em 1890) e por isso
pertencia à mesma geração deste. Era aliás aquele do "grupo"
que frequentava Pessoa com o qual este sentia maior proximidade
intelectual, embora estivesse muito tempo distante, em Paris.
Verdadeiro amigo íntimo? Não se sabe. Talvez apenas a distância
e a curta existência de Sá-Carneiro (26 anos) o evitassem. O
certo é que a morte de Sá-Carneiro perturbou decisivamente
Fernando Pessoa, talvez ao ponto de o fazer rever a direcção
que tomava a sua própria vida. O efeito psicológico imediato é
visível nas cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, datadas de 4 de
Maio e 4 de Setembro de 1916. Mais distante, mas não menos
intensa, é a lembrança que faz ainda de Sá-Carneiro num poema
incompleto, datado de 1934 (um ano antes da sua própria morte),
onde escreve: Como éramos só um, falando! Nós/Éramos como
o diálogo numa alma/Não sei se dormes calma/Sei que, falho de
ti, estou um a sós; e ainda: Ah, meu maior amigo, nunca mais/Na
paisagem sepulta desta vida/Encontrarei uma alma tão querida/Ás
coisas que em meu ser são as reais. (10) A «Revista de Comércio e
Contabilidade». Dirigida em parceria com o seu cunhado
Francisco Caetano Dias, nesta revista Pessoa colabora durante
alguns anos com artigos sobre uma realidade que lhe era próxima
- a da vida burocrática dos escritórios comerciais, que a meu
ver influiu decisivamente na escrita do Livro do Desassossego.
(11) Inquérito de Augusto da Costa
sobre o tema «Portugal - Vasto Império». O jornalista
Augusto da Costa colocou este inquérito a figuras de renome da
época, entre as quais Fernando Pessoa. Na resposta, Pessoa
coloca a hipótese de Portugal enquanto grande potência
cultural, geradora do Quinto Império de que se fala na Bíblia e
nas obras do padre António Vieira, de Camões e de Bandarra.
Trata-se de uma resposta algo hermética, mas de certo modo também
profética, pois em certo ponto diz Pessoa: "Para o
destino que presumo será o de Portugal, as colónias não são
precisas". Em 1926 só um pensador como Pessoa poderia
arriscar prever um futuro imperialista sem as colónias do
Ultramar... Prevendo o ainda não realizado Imperialismo Cultural
Português. (12) A «Presença». Folha
de arte e crítica dirigida por João Gaspar Simões, José Régio
e Branquinho da Fonseca. (13) O desaparecimento de Aleister
Crowley na Boca do Inferno. O sentido de humor de
Fernando Pessoa é muitas das vezes ignorado. Na realidade ele
parece ter apreciado sobremaneira os embustes subtis aos amigos,
as famosas blagues (petas, mentiras, aldrabices...). O
mais elaborado embuste terá sido o relacionado com Aleister
Crowley, um conhecido mágico inglês. Pessoa escreveu-lhe a
indicar um erro num horóscopo e depois de algumas cartas, o mágico
veio a Portugal conhecê-lo. Chega a 2 de Setembro de 1930 a
Lisboa. Gera-se uma grande cumplicidade entre os dois, na qual
está também envolvido Augusto Ferreira Gomes, que era ocultista.
Combinam o espectacular desaparecimento de Crowley na Boca do
Inferno em Cascais, gerando grande alarido nos jornais nacionais
e estrangeiros e com a própria polícia. Tudo, no entanto, não
passara de uma brincadeira elaborada. (13) Poema VIII do Guardador
de Rebanhos. Trata-se de uma porção polémica do
poema Guardador de Rebanhos, em que Pessoa fala de Jesus
Cristo e da Trindade. No poema VIII, Jesus Cristo foge do céu
tornando-se novamente menino, para viver numa aldeia, feliz como
não era lá em cima. Alberto Caeiro, «O Mestre», era defensor
de um regresso ao paganismo, de uma recusa da metafísica como
coisa necessária. Para Caeiro - usando as palavras de Agostinho
da Silva no seu Um Fernando Pessoa - deve-se evitar o
caminho difícil e angustioso do filosofar, pois descobre-se o
mesmo sem a filosofia, mas não incorrendo na amargura de
dissecar em cadáver o que era vivo. O ponto de vista
estritamente natural, sobretudo no que diz respeito a Jesus
Cristo e à Trindade, é algo que Pessoa talvez evitasse colocar
em seu próprio nome - escrever sobre isso com a capa de Caeiro
é evitar a celebridade odiada e plebeia. (14) Alma Errante de Eliezer
Kamenezky. Kamenezky era um judeu Russo, que se estabeleceu como
alfarrabista em Lisboa. Era também poeta e frequentador dos
meios literários e artísticos da cidade, onde terá conhecido
Pessoa. Este prefaciou este seu livro, elaborando nesse prefácio
um dos mais importantes ensaios sobre a Maçonaria, os Judeus e
os Rosa-Cruzes. (15) A Mensagem.
A Mensagem foi a única das principais obras de Fernando
Pessoa publicada em vida deste. É um poema épico, mas de proporções
de certo modo inversas ás dos Lusíadas de Camões. Não
é tão extenso, nem tão elaborado ou lírico como a obra máxima
de Camões, mas é infinitamente mais complexo e hermético. A
Mensagem parece ser um comunicado solene e não uma celebração
de glórias passadas, onde o poeta pretende que se revele, não
emoção, mas a "razão na poesia". Trata-se de um
ensaio poético sobre a decadência e o necessário renascimento
da alma Lusitana. Envolta em alguma polémica foi a forma como a
obra foi premiada no concurso a que Pessoa com ela concorreu em
1934. O prémio Antero de Quental, no valor de 5000$00, destinava-se
a premiar uma obra poética de intenção nacionalista. A Mensagem
não ganhou a primeira categoria, na que saiu vencedora a
Romaria de Vasco Reis, padre Franciscano, missionário em Moçambique.
Apenas por intervenção pessoal de António Ferro - amigo próximo
de Pessoa - se atribuiu à Mensagem um prémio do mesmo
valor, mas numa segunda categoria, visto que a obra não
respeitara o número de páginas para concorrer à primeira
categoria. Mas mais importante do que isso, foi Pessoa ter visto
publicada a Mensagem, que para ele consistiu no início
deslumbrante da sua missão Universal: a união fraternal de
todos os homens numa civilização cultural que teria o seu
inicio pelas mãos de portugueses presentes e futuros. (16) O Quinto Império. A ideia do Quinto Império surge na Bíblia, no livro de Daniel, em que este profeta analisa um sonho tido por Nabucodonosor, rei da Babilónia. O sonho era o seguinte: uma enorme estátua com cabeça de ouro fino, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze e as pernas metade de ferro e metade de barro, destruída por uma pedra que logo se transformou numa alta montanha enchendo toda a Terra. A interpretação de Daniel foi: Tu (o rei) é que és a cabeça de ouro. Depois de ti surgirá um outro reino menor do que o teu; e depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará toda a Terra. Um quarto reino será forte como o ferro, vindo a esmagar todos os outros, mas sendo de ferro e argila não aguentará para sempre. a pedra que destroí os quatro metais ou quatro reinos simboliza o reino que o Deus do Céu fará aparecer, um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. (Daniel, 2). No prefácio, Pessoa coloca as interpretações dadas a estas palavras herméticas. Diz que a interpretação clássica - a dos impérios materiais - coloca os impérios nesta ordem: Babilónia, Pérsia, Grécia, Roma, Inglaterra. A interpretação judaica, porém, considera o Quinto Império como sendo Israel. Os Impérios espirituais, porém, já se ordenariam da seguinte maneira: Grécia, Roma, Cristandade, Europa, Portugal. Antes de Pessoa já Camões e o padre António Vieira (na sua História do Futuro), tinham tido esta mesma perspectiva. (17) Teosofia. Religião mística,
fundada por Helena Petrovna Blavatsky em 1875 na cidade de Nova
Iorque. A Sociedade Teosófica tinha por objectivos a promoção
da fraternidade universal, o estudo das grandes religiões do
mundo, das grandes filosofias e ciências, assim como a investigação
das leis desconhecidas da natureza e dos poderes psíquicos. As
principais obras de H. P. Blavatsky foram Isis Unveiled
(2 volumes, 1877), The Secret Doctrine (1888), The
Key to Theosophy e The Voice of Silence (ambas de
1889). Blavatsky viria a morrer em 1891, com sessenta anos de
idade, tida por muitos como um dos impostores mais completos,
engenhosos e interessantes da história. No entanto, é de relevo
a influência que as ideias de Madame Blavatsky tiveram na
ideologia nazi, com a sua teoria das "raças de raiz",
na qual falava da evolução humana desde seres hiperbóreos,
passando pelos habitantes das civilizações perdidas da Lemúria
e Atlântida até aos seres humanos actuais. As suas teorias
filosóficas, porém, eram algo confusas, combinando a Cabala,
Agrippa, Pitágoras, budismo, hinduísmo e taoísmo. Talvez o que
tenha atraído Pessoa seja a vertente espírita, contraposta
frontalmente a um qualquer dogmatismo religioso. Pessoa teve ele
próprio experiências sobrenaturais, tais como fenómenos de
escrita automática e mediunidade (relatada em carta à Tia
Anica, datada de 24 de Junho de 1916). (18) Sobre o Fascismo. Os
anos 20 e 30 são anos conturbados para a vida política nacional.
A experiência da Primeira República (1910-1926) é sobretudo
marcada por uma convulsão constante, de uma constante vontade de
mudar quem está com as rédeas do poder. Com o fim da Grande
Guerra, a instabilidade política e económica levou a que uma
asa intelectual da sociedade clamasse pela ditadura, para se pôr
ordem no país, com o exemplo mais fulgurante das iniciativas da
«Seara Nova». Pode-se compreender agora um pouco melhor -
embora fosse necessário um estudo mais aprofundado e extenso do
que este - como Fernando Pessoa dá o "benefício da dúvida"
à ditadura, com a publicação do seu Interregno em
1928. O título quer dizer isso mesmo - esperava-se o que o espaço
de tempo que levava a instaurar um novo regime político poderia
trazer. Longe portanto de ser um fascista, ou sequer um defensor
do fascismo, Pessoa rapidamente se arrepende de defender a
ditadura. Previa editar uma nova edição do Interregno,
por volta do ano de 1932. A seu ver o perído de experiência - o
Interregno - tinha terminado negativamente. Agudizou-se a separação
entre o que Pessoa desejava para o país - Pessoa era afinal um
idealista prático, um profeta com profecias prontas à acção -
e o que o regime tinha em mente. A separação, em 1935, parece já
terminal, vendo Pessoa claramente que a Censura seria uma enorme
obstrução à produção literária livre em Portugal. O ódio
"corporiza-se" em Salazar. Pessoa escreve: "Coitadinho/Do
tiraninho!/Não bebe vinho/Nem sequer sozinho.../Bebe a verdade/E
a liberdade./E com tal agrado/Que já começaram/A escassear no
mercado./Coitadinho/ (19) A Discussão em Família. A criação dos heterónimos como sendo personalidades separadas no tempo e no espaço, levou - num passo seguinte - a que Pessoa considerasse, que no entretanto da evolução das obras de cada um, houvesse lugar a discussões literárias, políticas, filosóficas... Pessoa ele mesmo, qual Deus ex machina intervia quase como provocador de polémica entre todos, ou então na condição de conciliador. É fácil de ver como estas polémicas aprofundariam, com o passar do tempo, as diferenças entre os heterónimos, marcando cada uma das suas personalidades individuais de modo cada vez mais inexorável e irreversível. |
bibliografia
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