Ás 5 horas da manhã do dia 13, Joaquim
de Seabra Pessoa, seu pai, morre vitimado por tuberculose, em
Lisboa. A noticia necrológica é publicada no «Diário de Notícias»
de 24 de Julho de 1893.
Outubro/Novembro - A mãe de Pessoa é obrigada a fazer
leilão de parte da mobília a fim de se mudar para uma casa mais
modesta, o terceiro andar do n.º 104 da Rua de São Marçal, em
Lisboa.
[1894]
Janeiro - No dia 2, morre o seu irmão Jorge, que ainda
não fizera um ano.
Outubro - A mãe de Fernando Pessoa conhece o
comandante João Miguel Rosa, (que virá a ser cônsul de Portugal em Durban, África
do Sul).
Dezembro - A avó de Pessoa, Madalena Xavier Pinheiro vem viver
com a família para Lisboa (saindo de Angra do Heróismo).
Neste mesmo ano Pessoa cria o seu primeiro heterónimo, Chavalier
de Pas, facto relatado pelo próprio a Adolfo Casais Monteiro,
numa célebre carta de 13 de Janeiro de 1935 em que fala
longamente sobre a origem dos heterónimos.
[1895]
Julho - Tem a data do dia 26 a sua primeira
poesia,
uma quadra intitulada À minha querida mamã. O
comandante João Miguel Rosa parte para a África do Sul.
Dezembro - A mãe de Pessoa casa por procuração, no dia 30,
na Igreja de São Mamede em Lisboa, com o comandante João Miguel
Rosa, que nesta altura é capitão do porto de Lourenço Marques, em Moçambique.
[1896]
Janeiro - Dia 5 a avó materna de Pessoa
regressa à Ilha Terceira. No dia 7, é concedido passaporte
à mãe e a Fernando Pessoa. Partem dia 20 para a África do Sul,
na companhia de um tio-avô, Manuel Gualdino da Cunha. Viajam no
navio Funchal até à Madeira e depois (dia 31) no paquete Inglês Hawarden Castle até ao Cabo da Boa Esperança.
Novembro - No dia 27, nasce a irmã de Pessoa, Henriqueta Madalena.
[1897]
Neste ano, Pessoa faz a instrução primária na escola de
freiras irlandesas da West Street. Neste mesmo instituto, faz a
primeira comunhão.
[1898]
Outubro - No dia 5, morre a sua avó materna.
Dia 22, nasce a sua irmã Madalena Henriqueta.
[1899]
Abril - Ingressa na Durban High School no
dia 7, onde
permanecerá três anos. Revela-se um bom aluno. É provável que
tenha, durante este período, sofrido a influência do director
do liceu, W. H. Nicholas, que era um grande conhecedor da
literatura inglesa.
Neste mesmo ano, cria o heterónimo Alexander Search.
[1900]
Janeiro - Dia 11, nasce o irmão Luís Miguel,
conhecido como Lhi.
Junho - Ophélia Queiroz, a sua única paixão conhecida, nasce no
dia 14, em Lisboa.
[1901]
Junho - É aprovado com distinção no seu
primeiro exame, o "First Class School Higher Certificate" da Universidade do
Cabo da Boa Esperança (universidade que existia apenas no papel, não tendo
instalações físicas). Neste mesmo mês, no dia 25, morre a sua irmã, Madalena
Henriqueta. Começa nestes meses a escrever as primeiras poesias
em inglês.
Agosto - No dia 1, vem a Portugal, com a família, de férias.
No navio em que viajam, o paquete König, vem o corpo da sua irmã
falecida. O vapor passa por locais exóticos como Lourenço Marques, Zanzibar,
Dar-es-Salam, Port Said e Nápoles. Em Lisboa mora com a família em Pedrouços e depois na
Avenida de D. Carlos I, n.º. 109, 3º. Esquerdo.
Outubro - Vai a Tavira visitar a "tia" Lisbela Pessoa Machado e
outros parentes do lado paterno.
[1902]
Maio - Dia 2, vai com o padrasto, a mãe e os irmãos
à Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna.
Fica 9 dias (7 a 16 de Maio). Escreve a poesia "Quando ela passa" num jornal
doméstico que ele próprio cria e dirige chamado A Palavra.
Junho - Dia 26, regressam todos a Durban: a mãe, o
padrasto, os irmãos e a criada Paciência que viera com eles.
Fernando Pessoa fica em Lisboa.
Setembro - Fernando Pessoa volta sozinho à África
do Sul no vapor alemão Herzog, no dia 19.
Outubro - Matricula-se na Commercial School (que funciona em
horário nocturno). Tenta
escrever romances em inglês.
[1903]
Janeiro - Dia 17, nasce, em Lisboa, o seu irmão João
Maria.
Novembro - Culminam os estudos de Fernando
Pessoa, que estudava de noite na Commercial School
contemporaneamente estudando disciplinas humanísticas de dia, no
exame para admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança ("Matriculation
Examination"). A
sua classificação é medíocre, mas entre 899 candidatos é-lhe
atribuído o prémio «Queen Victoria Memorial Prize» pelo
melhor ensaio de estilo inglês. O ensaio perdeu-se, mas seria sobre um de 3
tópicos: a) minha concepção do homem e da mulher instruídos, b) superstições
comuns, c) jardinagem na África do Sul.
[1904]
Fevereiro - Fernando Pessoa ingressa novamente na Durban High School onde
frequenta o equivalente a um primeiro ano universitário.
Aprofunda a sua cultura, lendo os clássicos ingleses e latinos.
Escreve poesia e prosa em inglês, surgindo os heterónimos
Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher.
Agosto - Nasce a sua irmã Maria Clara, no dia 16.
Dezembro - Publica no jornal do liceu um ensaio
crítico com o título Macaulay. Dia 16 faz o «Intermediate
Examination in Arts» na Universidade, com bons resultados (os melhores da
província do Natal). Mas
com este exame terminariam nos seus estudos na África do Sul.
[1905]
Agosto - No dia 20 parte sozinho para Lisboa
a bordo do vapor Herzog. Seria agora um regresso definitivo à
sua pátria, na verdadeira acepção de que regressava à terra
de seu pai. Em Lisboa fica algum tempo na casa da Tia Avó Maria
Cunha, em Pedrouços. Depois vai viver com a Tia Anica, irmã da
sua mãe, na Rua de São Bento, n.º 19, 2.º Esquerdo. Continua
a escrever poesia em inglês.
Outubro - No dia 2 começa a frequentar o Curso Superior de
Letras em Lisboa.
[1906]
Começa a escrever páginas para um diário que será sempre errático
e ocasional.
Maio-Agosto - Está doente, falhando os exames
de Julho na Universidade.
Setembro - No final do mês matricula-se
novamente na Universidade, no 1.º ano. Tem grande empenho no
estudo da cadeira de filosofia.
Outubro - No início do mês a mãe e o padrasto vêm a Lisboa de férias
e Fernando vai viver com eles na Calçada da Estrela, n.º 100, 1.º.
Dezembro - Morre, em Lisboa, no dia 11, a sua irmã Maria
Clara.
[1907]
Surge o heterónimo Jean Seul.
Abril - Há uma greve académica que paralisa o Curso. Segundo
alguns especialistas Pessoa terá desempenhado um papel de alguma relevância.
Maio - Com o regresso a Durban da sua família, Fernando Pessoa vai
viver com a Avó Dionísia e as duas Tias Avós maternas na Rua
da Bela Vista à Lapa, n.º 17, 1.º. Entretanto desiste da
Faculdade e começa a ler os filósofos gregos e alemães, bem
como os decadentes franceses. No dia 10, João Franco instaura a ditadura
em Portugal.
Junho - Pessoa abandona o Curso Superior de Letras.
Setembro - Começa a trabalhar na R.G. Dun. No dia 6, morre a sua avó Dionísia, que lhe deixa
uma pequena herança.
Pessoa recusa a oferta de bons lugares, porque as obrigações de
um horário fixo o impediam de realizar a sua obra literária.
[1908]
Fevereiro - Dia 1 são assassinados o Rei D.
Carlos e o Príncipe herdeiro, quando regressavam de Vila Viçosa num carro
aberto.
Descreve, em notas autógrafas, as
influências que começa a sentir de autores portugueses como
Antero, Junqueiro, Nobre e Cesário Verde.
Setembro - Dia 6 começa a escrever o Fausto (é o primeiro
fragmento datado, pelo que o início pode ser anterior).
[1909]
Agosto - Pessoa vai a Portalegre comprar material para montar uma tipografia
em Lisboa.
Novembro - É instalada de facto, na Rua da Conceição da Glória, 38 e 49, a «Empresa Ibiz - Tipográfica e Editora», que no entanto mal chega a
funcionar.
Pessoa vive na Rua da Glória, n.º 4, r/c. Começa a
trabalhar como correspondente estrangeiro para escritórios
comerciais.
[1910]
Escreve poesia e prosa, em português, inglês e francês.
Sofre influência dos simbolistas franceses e de Camilo Pessanha.
Outubro - No dia 5 é proclamada a República.
Dezembro - É fundada, no Porto, a revista «A
Águia».
[1911]
Muda-se para o Largo do Carmo, 18-20, 1.º.
Maio - Pessoa aceita traduzir para português uma Antologia de
Autores Universais, dirigida por um editor americano e destinada
a ser publicada no Brasil.
Junho - Muda-se para a Rua Passos Manuel, 24, 3.º onde vive
alguns meses com a sua tia "Anica".
Setembro - Dia 12 o seu padrasto é nomeado cônsul-geral de
Portugal na África do Sul e a família muda-se para Pretória. Dia 21 morre a sua
tia-avó Maria, na cada da tia "Anica".
[1912]
Janeiro - É fundada, no Porto, o movimento
da «Renascença Portuguesa». A «A Águia», dirigida por
Teixeira de Pascoaes, torna-se um órgão desse movimento.
Fevereiro - Instala-se numa morada da Rua Passos Manuel.
Abril - Estreia literária de Pessoa, com a
publicação em «A Águia» do seu artigo A Nova Poesia
Portuguesa Sociologicamente Considerada. Seguido em Maio por
Reincidindo... Os dois artigos criam uma grande polémica.
Outubro - Dia 13 Sá-Carneiro parte para Paris, onde se
inscreve na Sorbonne. Inicia-se a correspondência entre os dois
amigos. Novembro - Pessoa publica, em três números
seguidos de «A Águia», o ensaio A Nova Poesia no seu
Aspecto Psicológico. No mesmo mês muda-se para a casa da
Tia Anica, na Rua de Passos Manuel.
[1913]
Período intenso de criação. Colabora em diversas publicações,
como a revista Teatro.
Escreve Epithalamium (em Março), Hora Absurda, o drama estático
O Marinheiro e Na Floresta do Alheamento (em Agosto). Este ano é também importante como período
de intensa discussão e tertúlia com os jovens artistas da geração
de Pessoa, que costumavam frequentar cafés em Lisboa.
[1914]
Sá-Carneiro regressa a Portugal. Pessoa continua a sua
colaboração com diversas publicações.
Abril - Muda-se para a Rua Pascoal de Melo, 119, 3.º dto.
Março - O dia 8 é para Pessoa o seu
«Dia
Triunfal». Como ele relata a Adolfo Casais Monteiro, na famosa
carta de 13/1/1935 em que fala da génese dos heterónimos: "(...)
acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a
escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta
e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não
conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca
poderei ter outro assim.". Surgem no êxtase, primeiro
o
Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, «O Mestre»;
depois a Chuva Oblíqua de Fernando Pessoa; seguido do
aparecimento dos discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (este
com a Ode Triunfal).
Junho - Surge a primeira poesia assinada por
Ricardo Reis.
Fernando Pessoa muda-se com a Tia Anica para a Rua Pascoal de
Melo. Escreve fragmentos da Teoria da República Aristocrática.
No Outono, começam as reuniões na cervejaria Jansen, à Rua
Victor Cordon, do grupo de que sairá «Orpheu».
Novembro - A Tia Anica parte para a Suiça, com
a filha e o genro. Pessoa abandona a casa da Rua Pascoal de Melo,
atravessando de seguida uma crise depressiva. Escreve para o
Livro
do Desassossego de Bernardo Soares, um seu outro heterónimo.
Acaba por romper com o grupo da «Renascença Portuguesa». Aluga um quarto na Rua
D. Estefânia, 127, r/c dto (na cada de uma engomadeira).
[1915]
Março - No dia 24, sai o primeiro número de
«Orpheu», com colaborações importantes de Pessoa, dando inicio concreto ao
movimento modernista em Portugal (sobretudo pela inclusão da "Ode Triunfal" de
Álvaro de Campos neste número).
Abril - Colabora em «O
Jornal», na rubrica Crónica da vida que passa, desde dia 4 a dia 21.
Maio - Publica o artigo O Preconceito da
Ordem.
Primeira versão de Antinous. A dia 14 o regime de Pimenta de Castro cai.
Junho - Saí o segundo, e último, número de «Orpheu».
Pessoa é agora director.
Julho - «A Capital» publica um artigo contra o grupo de
«Orpheu». Campos retalia com uma carta dirigida ao director do jornal em que
ironiza com a queda de Afonso Costa de um eléctrico e coloca Pessoa em perigo de
vida (a intervenção de Almada Negreiros será essencial para que nada lhe tenha
acontecido).
Setembro - Sá-Carneiro, já novamente em Paris,
comunica a Pessoa que não há dinheiro para o número 3 de «Orpheu»
poder ser publicado. As provas deste número, no entanto, chegam
a ser completadas. Completa a tradução do Compêndio de Teosofia de C.
W. Leadbeater.
Dezembro - A mãe de Pessoa adoece, em Pretória,
com uma apoplexia. Surge a personalidade literária e astrólogo Raphael Baldaia.
[1916]
Março - Pessoa experimenta com o fenómeno da
escrita automática. No dia 9 a Alemanha declara guerra a Portugal.
Abril - Publica o poema Hora Absurda.
No dia 26, ás 8 horas e 20 minutos, Sá-Carneiro suicida-se em
Paris, no Hotel de Nice, ingerindo 5 frascos de estricnina. As
causas do suicídio estariam certamente relacionadas - mesmo que
essa fosse apenas a maior das causas - com as dificuldades económicas
que o afligiam. O último bilhete para Pessoa diz: "Um
grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro".
Pessoa, numa carta à Tia Anica datada de 24 de Junho de 1916,
diz ter sentido mediunicamente a grande crise por que passava Sá-Carneiro
em Paris.
Maio -
Pessoa muda agora habitualmente de habitação. Frequenta quartos
alugados na Rua Antero de Quental, na
Outubro/Novembro - Mora na Rua Almirante Barroso, num quarto
contíguo à Leitaria Alentejana.
Dezembro - Mora na
Rua Cidade da Horta. Publica os Passos da Cruz.
[1917]
Portugal intervém na Grande Guerra, suscitando comentários
escritos de Pessoa.
Abril - Almada Negreiros anuncia o futurismo ás
massas, numa conferência, no dia 14, no Teatro República
intitulada Ultimatum futurista ás gerações portuguesas do
século XX.
Maio - No dia 12, o número 3 da revista "Orpheu" é terminado,
mas não chega a ser publicado, por falta de dinheiro.
Junho - Dia 6 recebe uma carta de rejeição de um editor inglês,
a quem tinha enviado o livro "The Mad Fiddler".
Julho/Agosto - Funda a firma F.A. Pessoa.
Os seus sócios são A. Ferreira Gomes e o Engenheiro Geraldo Coelho de Jesus,
Trata-se de um escritório de comissões e consignações na Rua de S. Julião, 45,
2.º.
Novembro - Pessoa colabora no «Portugal
Futurista».
Passa a viver na Rua Bernardim Ribeiro, 17, 1.º.
Dezembro - Dia 5 há um golpe de estado e Sidónio Pais instaura
uma nova ditadura.
[1918]
Abril - Dia 29 morre Santa-Rita Pintor (nome por que
era conhecido o pintor Guilherme de Santa-Rita, amigo de Pessoa,
um dos elementos precursores do modernismo - a que Pessoa também
pertencia por direito próprio - em Portugal). A sua obra é
queimada, por respeito à sua última vontade.
Maio -
O escritório de representações é trespassado.
Julho - Publica, às suas custas, Antinous e 35
sonnets e envia-os a diversos editores ingleses.
Setembro - A crítica inglesa analisa os poemas
ingleses de Pessoa. O «Times» e o «Glasgow Herald» publicam
artigos de crítica sobre os volumes
Antinous e
35
Sonnets.
Outubro - Morre Amadeo de Sousa Cardoso, amigo
de Pessoa, vitimado pela gripe espanhola.
Dezembro - No dia 14 é assassinado em Lisboa o Presidente
Sidónio Pais, no qual Pessoa tinha visto o novo Sebastião.
Depois da morte de Sidónio, Pessoa passa a considerá-lo como
mais um dos falsos D. Sebastião na história nacional.
Abre-se, com o assassinato, uma grave crise política. Pessoa mora
na Rua Santo António dos Capuchos.
[1919]
Pessoa escreve os
Poemas Inconjuntos de Alberto
Caeiro, que vão aparecer com a data fictícia de 1913-1914, por
coerência diacrónica com a biografia do heterónimo, morto em
1915.
Outubro - Morre no dia 5 o seu padrasto, em Pretória.
Pessoa, morando na Avenida Gomes Pereira, dedica-se à ensaística
política. Publica na «Acção», os artigos Como Organizar
Portugal e A Opinião Pública.
Agosto - Muda-se para a Rua Capitão Renato Baptista, 3, r/c
esq.
Novembro -
Conhece, no escritório «Félix, Valladas & Freitas», Ophélia Queiroz, que ia a responder a um
anúncio. Pessoa era primo e amigo do sócio Freitas e por isso
frequentava o escritório. Muda-se para a Av. Gomes Pereira, em Benfica.
[1920]
Janeiro - Publica na revista inglesa The
Athenaeum o poema "Meantime".
Fevereiro - Dia 20 os três meios-irmãos e a mãe de Pessoa
embarcam para Lisboa.
Março - É datada de 1 de Março a primeira
carta, de resposta, de Fernando Pessoa a
Ophélia Queiroz. O
namoro começa com esta carta, mas no entanto Pessoa, ao longo de
algumas semanas, desde o encontro inicial, já fazia a corte a
Ophélia, tendo-a inclusive beijado "apaixonadamente,
como um louco". Dia 30, a mãe e os meios-irmãos de Pessoa regressam a Portugal. Pessoa vai
viver com eles, dia 29, para a Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º. Por esta altura,
Pessoa concorre, com o nome de A. A. Crosse, nos concursos do «Times»,
talvez tentando o golpe de sorte que lhe daria os recursos necessários
para casar com Ophélia.
Maio - Os meios-irmãos Luís e João partem para Inglaterra.
Outubro - Atravessa uma grande crise psíquica.
Pensa mesmo em internar-se.
Novembro - Interrompe a sua relação com Ophélia.
Pessoa diz na carta de ruptura, datada de 29 de Novembro de 1920,
que o seu destino pertence a "outra Lei", "subordinado
(...) à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam".
[1921]
Funda a Editora «Olisipo», com sede na Rua da Assunção, 58,
2.º. No
mesmo ano surge em Lisboa a «Seara Nova», que tem em António Sérgio,
Raul Proença, Aquilino Ribeiro e Jaime Cortesão os seus
elementos fundadores.
Outubro - Dia 19 é a "noite sangrenta", ocorrendo o assassinato
de diversos republicanos.
Dezembro - Publica,
na Olisipo, os seus English
Poems I e II e English Poems III
e a Invenção do Dia Claro de Almada Negreiros.
[1922]
Maio -
Pessoa colabora com assiduidade na revista «Contemporânea»,
de José Pacheco até Outubro.
A Editora Olisipo publica a 2ª edição das Canções
de António Botto.
Novembro - É fundada a firma F.N. Pessoa com sede na Rua de S.
Julião, 52, 1.º. Os sócios prováveis são Augusto Franco, Albano da Silva e Júlio
Moura.
[1923]
Fevereiro - A obra Sodoma Divinizada de Raul Leal (Henoch) é
publicada pela Olisipo. Logo de seguida (dia 19) é alvo de um ataque
cerrado da Liga dos Estudantes de Lisboa.
Março - A obra é apreendida,
assim como as Canções de António Botto.
Álvaro de Campos reage, publicando Sobre um Manifesto de
Estudantes.
Abril - Álvaro de Campos reage, publicando Aviso por Causa da Moral.
Julho - Assina o protesto de intelectuais
portugueses contra a proibição censória do Mar Alto
de António Ferro.
António Botto publica Motivos de Beleza, com uma nota
de Pessoa. Dia 21 a mãe e a irmã de Pessoa Henriqueta, vão viver para a Quinta dos
Marechais, Alto da Boa Vista em Benfica, deixando Pessoa a viver sozinho.
Henrique Rosa vai também viver para a Quinta dos Marechais, por se encontrar
doente.
[1924]
Outubro - Sai o primeiro número da revista «Athena»,
que Pessoa dirige com o pintor Ruy Vaz e para a qual colabora com vinte
odes de Ricardo Reis.
[1925]
Fevereiro - A «Athena» cessa a publicação
com o seu número de Fevereiro. Dia 8
falece o General Henrique Rosa.
Março - No dia 17, morre a mãe de Fernando
Pessoa.
Mário de Saa publica o volume A Invasão dos Judeus, no
qual Pessoa é uma das figuras analisadas.
Outubro - A irmã Henriqueta (Teca) e o marido regressam à Rua Coelho
da Rocha, depois a filha de ambos ter morrido no Verão
deste ano. A razão do regresso à Coelho da Rocha deve ter
estado ligada às mortes sucessivas da mãe e do padrasto de Pessoa e da pequena
bebé, todas ocorridas na mesma casa.
[1926]
Janeiro - Dia 1 é publicado, em serial, a
tradução de Pessoa de A Letra Encarnada. Dia 25 inicia-se a publicação da «Revista
de Comércio e Contabilidade», que Pessoa dirige com o seu
cunhado, o Coronel Francisco Caetano Dias e para a qual colaborará
com diversos artigos.
Abril - Morre a tia-avó Carolina.
Maio - No dia 28 há um golpe militar que põe fim à Primeira
República, instaurando a ditadura com Gomes da Costa.
Julho - Novo golpe, por Sinel de Cordes e Óscar Carmona.
Agosto - Pessoa regista a patente para um «Anuário
indicador sintético, por nomes e outras quaisquer classificações,
consultável em qualquer língua».
Outubro - O diário Sol publica, em serial, a tradução de Pessoa do
romance policial O Caso da 5.ª Avenida.
[1927]
Março - Sai o primeiro número da revista «Presença».
Abril - No terceiro número da «Presença»,
José Régio reconhece em Pessoa o Mestre da nova geração.
Junho - Primeira colaboração de Pessoa na «Presença».
Novembro - A irmã de Pessoa, o cunhado e a sobrinha mudam-se
para Évora.
[1928]
Abril - Publica o texto Interregno. António de Oliveira Salazar é nomeado Ministro das Finanças.
Pessoa colabora em diversas publicações. Em conjunto com José
Pacheco, Mário Saa, António Botto e outros, funda a «Solução
Editora».
Maio - Inicia a sua colaboração com O Notícias Ilustrado.
Agosto - Cria o último heterónimo, o Barão de Teive, um fidalgo
que cultivava ideias suicidas.
[1929]
Abril-Junho - Publica textos do Livro
do Desassossego.
Junho -
O crítico e amigo de Pessoa, João Gaspar Simões, dedica 20 página
do seu livro Temas ao estudo da obra do poeta. É o
primeiro estudo crítico sobre a poesia de Pessoa.
Setembro - No dia 2, Fernando Pessoa oferece
a Carlos Queiroz, seu amigo e sobrinho de Ophélia, uma
fotografia sua que o retratava bebendo um copo de vinho no Abel
Pereira da Fonseca. Ophélia acha graça à fotografia e pede uma
cópia para si. Fernando Pessoa manda-lhe uma com a dedicatória:
"Fernando Pessoa. Em flagrante delitro". Assim
se reacende a relação sentimental entre os dois. Data de 11 deste mês, a primeira
carta de Pessoa a Ophélia, nesta segunda fase do namoro. É uma
carta de resposta à que Ophélia lhe mandara em agradecimento do
envio da cópia pedida.
Outubro - Morre, em Tavira, a sua "tia" Lisbela.
Dezembro - Dia 4 envia uma correcção do horóscopo de Aleister
Crowley em carta à editora deste, na qual encomenda livros.
[1930]
Janeiro - Dia 11 é a data da última carta a
Ophélia.
Setembro - No dia 2 chega a Lisboa o Mago
Aleister Crowley. Por se ter atrasado por causa do nevoeiro,
dispara a Pessoa, que nunca tinha visto antes: "Por que
diabo me mandou você um nevoeiro?". A estadia de
Crowley é aproveitada para encenar o desaparecimento deste na
Boca do Inferno, em Cascais, dia 23.
É um intenso período de criação heterónimica.
Outubro - Dia 5 O Notícias Ilustrado publica um
testemunho de Pessoa sobre o "caso Crowley".
Novembro - A irmã de Pessoa, que estava em Évora, regressa a
Lisboa.
[1931]
Fevereiro - Publica na Presença o VIII poema do "Guardador de
Rebanhos".
Março - Data de 21 deste mês a última
carta de Ophélia a Pessoa. Dá-se por isso nos primeiros meses
de 1931 a efectiva e terminal interrupção da relação
sentimental entre os dois.
[1932]
Julho - Dia 5 Salazar é eleito presidente do
conselho.
Setembro - Dia 16 apresenta uma candidatura ao lugar
de conservador-bibliotecário do Museu-Biblioteca Condes de
Castro Guimarães, em Cascais, motivado por dificuldades económicas.
No entanto não seria ele o escolhido pelo Presidente da Câmara,
mas sim o pintor Carlos Bonvalot.
É publicada a obra Alma Errante, com prefácio de Pessoa. A irmã de
Pessoa e o marido constroem uma moradia em São João do Estoril, que mais tarde
Pessoa visita amiúde.
[1933]
Janeiro - Pierre Hourcade publica traduções
de poemas de Pessoa em francês, nos Cahiers du Sud, com uma introdução.
Março-Abril - Prepara o livro de Sá-Carneiro, Indícios de
Ouro.
Julho - Publica o poema A Tabacaria, na
Presença.
Atravessa nova crise psíquica. No entanto, é um período de
grande criatividade crítica e ortónima.
Outubro - António Ferro é nomeado director do Secretariado de
Propaganda Nacional, que foi criado em Setembro.
[1934]
Maio - Última colaboração com a
Presença.
Julho - Inicia o projecto de escrever quadras "populares".
Até Agosto de 1935 escreve 350.
Outubro - Saem alguns exemplares de Mensagem, de
modo a permitir que a obra concorra ao prémio do SPN.
No dia 10, Fernando Pessoa deixa um exemplar autografado da Mensagem
no hotel onde estava hospedada a poeta Brasileira Cecília Meireles. Pessoa
tinha marcado um encontro com ela, mas falhou justificando-se com um horóscopo
desfavorável.
Dezembro - Dia 1 (dia da Restauração) é o dia escolhido
para o lançamento oficial de a
Mensagem.
Faz o prefácio ao livro Quinto Império, de Augusto
Ferreira Gomes.
[1935]
Janeiro - Dia 13 escreve uma carta extensa a Adolfo
Casais Monteiro onde explica a génese dos heterónimos.
Fevereiro - Dia 4 defende as associações secretas
num artigo publicado no «Diário de Lisboa».
Na Primavera vem a Portugal, em viagem de núpcias, depois de
quinze anos de ausência, o irmão Luís Miguel. Pessoa deixa-se
fotografar com a família em diversas ocasiões, nomeadamente
diante do Mosteiro dos Jerónimos em Belém.
Outubro - Dia 21 Pessoa escreve o último poema de Álvaro de
Campos: "Todas as cartas de amor são ridículas".
Novembro - Dia 13 escreve o último poema de Ricardo Reis
("Vivem em nós inúmeros"). Dia 19 escreve o último poema datado em português:
"Há doenças piores que as doenças". Dia 22 escreve os últimos poemas datados em
inglês ("The happy sun is shinning") e francês ("Le sourire de tes yeux bleus"). Por volta do dia 27 ou 28, Pessoa
encontra-se pela última vez com João Gaspar Simões e Almada
Negreiros. Dias antes, Pessoa tinha tido uma grave crise hepática
que o fizera perder os sentidos na casa de banho da casa da Rua
Coelho da Rocha, tendo o médico avisado que mais um cálice de
aguardente seria fatal. No dia 28 é internado no Hospital de S.
Luís dos Franceses, onde lhe é diagnosticada uma cólica hepática.
Ao morrer pede os óculos. Morre no dia 30, ás 20 horas e trinta
minutos, estando presentes o Dr. Jaime Neves e os amigos
Francisco Gouveia e Vítor da Silva Carvalho.
Dezembro - No dia 2 é levado a enterrar o seu
corpo. Ás onze horas o caixão saiu da capela do Cemitério dos
Prazeres. Repousará no jazigo da sua avó (Rua 1, Direita, n.º
4371). Acompanhavam a procissão fúnebre amigos do poeta, entre
os quais: Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo
Guisado, Almada Negreiros, João Gaspar Simões, António Botto e
Carlos Queiroz. Representava a família o Capitão Caetano Dias.
Junto do jazigo, Luís de Montalvor proferiu um breve elogio fúnebre,
improvisado e sentido.
A noticia necrológica da morte de
Fernando Pessoa foi publicada no «Diário de Notícias» de 3/12/1935.
Na ocasião dos cinquenta anos da sua morte (1985), e no dia do seu aniversário, 13 de Junho, os seus restos
mortais foram transladados para o Mosteiro dos Jerónimos.