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NAUFRÁGIO DE
BARTOLOMEU
Nenhum livro para
crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de cousas
simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de
adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser. Assim, João
de Deus não escreveu a «Enjeitadinha» senão com o escrúpulo de
ser simples. E porque o assunto era também simples, as crianças
compreendem-o. Se quisesse ser infantil, acontecia-lhe isto -
seria infantil . O Sr. Lopes Vieira quer escrever para crianças
mediante intuição da alma infantil, como uma criança, escrevendo
para crianças. Mesmo que se saísse bem disto, não se saía bem
disto. Porque as crianças não escrevem. Escrever como uma
criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna
tolerável. Mas o que uma criança escreve ou não se publica ou se
publica para adultos, psicólogos. E que interesse tem para
crianças esta baba pedagógica? Que interesse há para adultos
nesta tradução para verso do estilo do Sr. Nunes da Mata? Que
interesse fica, para psicólogos desta pobreza de senso comum,
obediência aos elogios de parvos ou videiros e casta abstenção
das voluptuosidades de pensar e criar-arte, do S. Francisco de
Assis da Livraria Ferreira?
Salvo no caso dum génio supremo, com chave para todas as portas
da expressão, o querer ser simples dá com o querente na
vizinhança de quem quer ser sublime. Este dá consigo em absurdo.
Aquele escorrega-se para idiota. É este, ao que parece, o
trágico fim cómico de quem foi o autor do «Ar Livre» e de «O
Poeta Saudade». Como estes fenómenos de combustão-em-asneira
encontrassem uma atmosfera de elogios propícia, a chama aumentou
até vir queimar a crítica para fora da indiferença. Esse
fenómeno de elogios - esse sim é que era merecedor de uma
análise de química psicológica.
A fama que o Sr. Lopes Vieira tem, ex-ganhou-a dignamente,
porque foi com uma obra bela, e por vezes grande que se
enfameceu. Foi com moeda de lei que adquiriu o incenso com que
se estonteou. Como muitos outros, e em parte pela mesma razão
turibular, criou fama e deitou-se a dormir. E visto que estes
livros para crianças e parte de outros, recentes, são o seu
sono, bem se pode dizer que dorme como uma besta. Mas voltemos,
acusadoramente, ao caso. O Sr. Lopes Vieira é um criminoso. É-o
por três razões. Está estragando, com o seu gato-por-lebre de
simplicidade, o rudimentar senso estético de crianças, que,
mesmo que sejam só duas, são classificáveis de inúmeras, ante o
horror do crime. - Está tornando ridículos assuntos que conviria
tratar com uma decência que a estupidez, mesmo quando
involuntária, nunca tem. Pobres cães nossos amigos tinhosos de
Lopes Vieira. Pobre Bartolomeu Dias, tão embobecido de
pedagogias! - E, por último, para tudo de nocivo ser, o Sr.
Lopes Vieira é até antipedagógico, porque quem escreve
Que era de antes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir
merece uma inquisição de professores. Educados na estupidez pela
leitura das obras infantis do Sr. Lopes Vieira, levados ao
antipatriotismo pelo inevitável desdém que um livro como o
«Bartolomeu Marinheiro»leva a ter pelo navegador que ali aparece
vestido de bebé de Carnaval, cheios de fobias por lhes terem
sido metaforizadas na infância cousas como que um quarto escuro
é logicamente terrível, os homens de Portugal de amanhã
(adoptados escolarmente, como tudo o que dizemos neste artigo
leva a crer que sejam, os livros do Sr. Lopes Vieira) terão por
Shakespeare o Sr. Júlio Dantas, por Shelley o Sr. Lopes
Vieira... e serão espanhóis.
Porque em que diabo pode vir a dar uma nação de parvos, de
antipatriotas e de panofóbicos senão em deixar de ser nação ?
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